Metropolis: o sci-fi de 1927 que todo trabalhador precisa ver

Metropolis: o sci-fi de 1927 que todo trabalhador precisa ver

Toda vez que o Dia do Trabalho chega, a conversa inevitavelmente vai para automação, robôs roubando empregos e inteligência artificial substituindo trabalhadores. Parece debate de 2026. Mas em 10 de janeiro de 1927 — 99 anos atrás — um diretor alemão chamado Fritz Lang mostrou exatamente essa angústia numa tela de cinema, num filme mudo com robôs de metal e operários exaustos trabalhando em turnos de dez horas nas entranhas de uma cidade futurista. O filme se chama Metropolis. E é mais atual do que a maioria dos lançamentos desta semana.

Como uma viagem a Nova York criou o futuro do cinema

Em outubro de 1924, Fritz Lang desembarcou pela primeira vez em Nova York. O que ele viu ao sair do navio foi suficiente para mudar o rumo do cinema. O próprio Lang descreveu assim: "O filme nasceu da minha primeira visão dos arranha-céus de Nova York." A cidade era violenta, vertical, contrastante — luzes de néon no alto, ruas escuras embaixo. Em algum lugar naquelas avenidas, ele imaginou a pergunta que definiria sua obra: o que acontece quando a tecnologia avança mais rápido do que a humanidade consegue processar?

De volta à Alemanha, Lang e sua esposa Thea von Harbou desenvolveram o roteiro baseado no romance dela de 1925. As filmagens duraram 17 meses, custaram mais de 5 milhões de Reichsmarks — o equivalente a cerca de 21 milhões de euros hoje — e foram feitas nos estúdios Babelsberg, em Berlim, para a UFA, maior produtora alemã da época. Em números, foi a produção mais cara do cinema alemão até aquele momento.

A versão original durava 153 minutos. Para o lançamento americano, cortaram cerca de um quarto do filme. Muito do metragem perdido ficou desaparecido por décadas.

Dois mundos dentro de uma cidade

A premissa de Metropolis é brutal na sua simplicidade. A cidade do futuro é dividida em dois planos: no alto, nas torres de vidro e aço, vivem os privilégiados — os filhos dos magnatas, os planejadores, os donos do capital. Lá embaixo, nas profundezas subterrâneas da cidade, vivem os trabalhadores. Eles operam as máquinas que mantêm o mundo de cima funcionando. Trabalham em turnos de dez horas. São tratados como engrenagens substituíveis. Não conhecem o sol.

O protagonista é Freder, interpretado por Gustav Fröhlich — filho do poderoso Joh Fredersen, o senhor de Metropolis. Quando Freder desce ao nível dos trabalhadores pela primeira vez e vê as condições em que vivem, a narrativa começa. Ele encontra Maria, uma jovem que prega paz e entendimento entre as classes, e se apaixona. Seu pai, preocupado com a influência de Maria sobre os operários, ordena que o cientista Rotwang crie um robô com a aparência dela para manipular os trabalhadores e provocar um caos que justifique repressão.

É uma história de 1927 sobre fake news, manipulação de massa e disputa de classes. Apenas.

A primeira inteligência artificial do cinema

O que Metropolis deu para o imaginário coletivo que nunca mais foi devolvido é o robô. O Maschinenmensch — literalmente "humano-máquina" em alemão — é o primeiro grande robô da história do cinema. Criado pelo cientista Rotwang para ter a aparência de Maria, o androide é interpretado por Brigitte Helm, a mesma atriz que faz a Maria humana. Ela usou um traje metálico esculpido em "madeira plástica" — uma resina maleável — sobre um molde de gesso do seu próprio corpo.

O resultado visual é o que todo mundo já viu em algum lugar, mesmo sem saber a origem: um androide humanoide, dourado, de postura teatral. C-3PO, de Star Wars, foi diretamente inspirado no Maschinenmensch de Metropolis — George Lucas nunca escondeu isso. O robô de Brigitte Helm também está na DNA visual de Blade Runner, do Exterminador do Futuro e de praticamente toda ficção científica que veio depois.

Metropolis foi o primeiro filme incluído no Registro da Memória do Mundo da UNESCO, em 2001. Não foi por acidente.

O que Metropolis inventou sem saber

A lista de coisas que o cinema e a TV devem a este filme de 99 anos é tão extensa que fica absurda quando você olha de uma vez só.

  • A estética de cidades futuristas distópicas — Blade Runner, The Fifth Element, Coruscant em Star Wars
  • O robô humanoide como ameaça ou ferramenta de controle
  • A narrativa de uma elite isolada no alto e trabalhadores invisíveis embaixo
  • O cientista louco criando vida artificial para seus próprios fins
  • A IA que imita um humano para manipular outros humanos

Ridley Scott, ao desenvolver Blade Runner em 1982, deixou registrado que Metropolis foi a maior influência visual do filme. A vastidão vertical de Los Angeles 2019, as torres que se perdem na névoa, os trabalhadores ignorados nas ruas de baixo enquanto a elite dorme nos andares de cima — tudo isso é Metropolis relido 55 anos depois.

Quase um século. Por que ainda incomoda?

Porque a pergunta central do filme não foi respondida.

Lang encerra Metropolis com um slogan que ficou famoso: "O mediador entre o cérebro e as mãos precisa ser o coração." É uma frase bonita, otimista até — a ideia de que o diálogo entre capital e trabalho resolve tudo. Alguns críticos da época acharam a conclusão ingênua demais, dado o cenário que o próprio filme construiu. O escritor H.G. Wells detestou o filme por isso.

Em 2026, a versão mais honesta da pergunta continua sem resposta clara: quando a automação elimina empregos em escala, quem fica com o tempo que a máquina liberou? Quem fica com o valor gerado? O trabalhador descansado ou o empresário com mais margem?

Metropolis não tem resposta. Mas foi o primeiro lugar onde a pergunta foi feita em imagem. Noventa e nove anos antes de hoje.

Se você nunca assistiu, a versão restaurada de 2010 — que recuperou boa parte das cenas perdidas encontradas num arquivo em Buenos Aires em 2008 — está disponível em plataformas de streaming e também de graça no Internet Archive, por ser domínio público — e a ficha de Metropolis no nosso Rei dos Filmes reúne nota, trailer e sinopse. Vale muito a sessão, mesmo que você precise se acostumar com a velocidade do cinema mudo.

E se você curte sci-fi que mistura ciência real com especulação, vale conferir também como o Hubble inspirou alguns dos melhores filmes de ficção científica modernos: 36 anos do Hubble: o telescópio que inspirou o sci-fi. Ou, se quiser algo mais recente e perturbador, tem o The Boys 5 — que faz com super-heróis exatamente o que Metropolis fez com robôs: usa a ficção para dizer algo que a realidade ainda não consegue nomear.

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