Project Hail Mary: o melhor sci-fi dos últimos anos

Project Hail Mary: o melhor sci-fi dos últimos anos

Três dias antes de assistir a Project Hail Mary, eu reli partes do livro. Queria saber se a memória afetiva com o texto ia estragar a experiência ou amplificar ela. O resultado foi mais do que eu esperava: o filme é, ao mesmo tempo, fiel ao que importa no romance e suficientemente diferente para ser a sua própria coisa. Para os fãs do livro de Andy Weir é um presente. Para quem nunca ouviu falar, é uma porta de entrada para um dos melhores sci-fi que o cinema produziu em muitos anos.

Andy Weir e o truque que ele sabe fazer melhor que ninguém

Se você viu The Martian — o filme de Ridley Scott de 2015, com Matt Damon sobrevivendo em Marte com batatas e física de foguetes — já sabe do que se trata Andy Weir. Ele tem um dom particular: pegar um protagonista sozinho, em situação de sobrevivência absurda, e transformar a resolução de problemas científicos em algo genuinamente emocionante. The Martian foi publicado em 2011. Project Hail Mary saiu em 2021 e fez a mesma coisa, só que com as apostas maiores: não é um homem tentando voltar pra casa — é a humanidade tentando não se extinguir.

O livro ficou anos na fila de adaptações. Phil Lord e Christopher Miller — os diretores de The Lego Movie e produtores de Spider-Man: Into the Spider-Verse — assumiram o projeto em 2020. A escolha faz sentido quando você assiste: eles sabem exatamente onde colocar humor sem quebrar a tensão, e sabem quando deixar um momento de silêncio trabalhar sozinho.

Acordar sozinho, no espaço, sem lembrar de nada

Ryland Grace acorda numa nave interestelar. Não sabe quem é. Não sabe onde está. Não sabe por que está lá. Dois tripulantes ao lado dele estão mortos. Enquanto a memória vai voltando aos pedaços — em flashbacks que o filme usa com inteligência, sem virar recurso de preguiça narrativa — o espectador descobre junto com ele o tamanho do problema: o Sol está perdendo energia por causa do Astrophage, um microrganismo extraterrestre que consome radiação solar. A Terra tem alguns anos antes de entrar num inverno permanente. Grace é o único que pode salvar a espécie. E está a anos-luz de distância, sozinho.

Ryan Gosling carrega esse primeiro ato praticamente em monólogo. É uma atuação contida e precisa — ele não interpreta um herói, interpreta um professor de ciências do ensino fundamental que, por acidente de circunstâncias, se tornou o mais importante ser humano do universo. O humor que Gosling encontra no personagem é fundamental. Sem ele, o filme viraria uma elegia pesada demais pra aguentar.

Rocky — o melhor alien do cinema em anos

Tudo o que o filme faz de certo converge no momento em que Grace descobre que não está sozinho. Numa nave vizinha está Rocky: um ser de cinco pernas, sem olhos, exoesqueleto rochoso, vindo de um sistema estelar chamado 40 Eridani. Rocky também é um cientista. O sol de Rocky também está sendo consumido pelo Astrophage. E Rocky também estava sozinho.

A comunicação entre os dois começa do zero — eles não compartilham idioma, biologia nem forma de perceber o mundo. A sequência em que Grace e Rocky constroem uma linguagem comum do nada é uma das mais engenhosas e emocionantes que vi no gênero em muito tempo. O filme não explica: mostra. E você acompanha o raciocínio em tempo real, como se estivesse participando do experimento junto com eles.

Rocky foi construído como um boneco físico, controlado por uma equipe de cinco puppeteers liderada por James Ortiz — a inspiração declarada foi Frank Oz e o próprio Yoda. Não há fundo verde nas cenas com ele. O personagem é matéria e mecânica, e a performance de Ortiz é tão expressiva que você esquece que Rocky não tem rosto. Ortiz batizou o grupo de Rockyteers. O design foi desenvolvido por Neal Scanlan — o mesmo artesão por trás das criaturas dos filmes recentes de Star Wars — em mais de trezentas iterações antes de chegarem na versão final.

Por volta da metade do filme, quando algo acontece entre Grace e Rocky, eu percebi que estava emocionalmente comprometido com uma criatura de cinco pernas que se comunica por sons percussivos. É exatamente o que o livro faz com palavras — e é o que um bom sci-fi deve fazer com imagens.

O que Lord e Miller fizeram certo

Segundo os próprios diretores, as cenas com Rocky são aproximadamente 50% puppetry e 50% VFX, e a costura é quase imperceptível. A escolha de usar efeito prático tanto quanto possível é uma declaração sobre o tipo de cinema que eles queriam fazer — e o resultado na tela confirma que a decisão valeu cada centavo a mais no orçamento.

O roteiro é de Drew Goddard — que também escreveu o screenplay de The Martian e de The Cabin in the Woods. Goddard manteve a estrutura não-linear do livro sem deixar o espectador perdido. É um script elegante: você nunca sente que está sendo manipulado pelos flashbacks, mesmo quando claramente está. Sandra Hüller integra o elenco de suporte nas cenas terrestres e entrega o contrapeso emocional que o primeiro ato precisa.

Números que dizem alguma coisa sobre o gênero

Project Hail Mary foi lançado em 20 de março de 2026 pela Amazon MGM Studios. Arrecadou mais de 639 milhões de dólares no mundo — terceiro filme mais visto do ano — com 94% de aprovação no Rotten Tomatoes e nota 77 no Metacritic. CinemaScore: A. São números que dizem alguma coisa sobre um gênero que vive pedindo permissão pra ser levado a sério.

Tem momentos onde o filme estica um pouco demais. Alguns flashbacks poderiam ser mais curtos. As cenas de Terra, com toda a carga política e humana que elas carregam no livro, saem um pouco menores na tela. Mas são ressalvas menores diante de um filme que decide, do início ao fim, confiar no espectador. Ele não explica demais. Não simplifica a ciência a ponto de esvaziar o significado. Deixa você sentar com a dificuldade do problema por tempo suficiente para sentir o peso da solução.

Se você gosta de ficção científica que trata a ciência como motor emocional — e não como cenário de fundo — Project Hail Mary é obrigatório. Ainda está nos cinemas em algumas cidades — e a ficha de Project Hail Mary no nosso Rei dos Filmes tem nota, sinopse e trailer. Deixa o comentário abaixo se você viu, e conta o que achou de Rocky. Quero muito saber se você chegou lá também.

Se quiser mais sci-fi que leva a ciência a sério, tem o post sobre 36 anos do Hubble e os filmes de sci-fi que a ciência inspirou — um paralelo direto com o que Weir faz. E se você curte a história de como o gênero foi construído tijolo por tijolo, vale o post sobre Metropolis de 1927 e os robôs que ele inventou.

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