Game Boy: o tijolão cinza que inventou o jogo portátil

Game Boy: o tijolão cinza que inventou o jogo portátil

Você provavelmente tinha um colega de escola que apareceu um dia com um tijolão cinza dentro da mochila. Não era pequeno. Não tinha luz na tela. Comia quatro pilhas AA com uma eficiência impressionante. E ainda assim, quando chegava a vez de você pegar, você ficava com aquela coisa nos dedos por tanto tempo que a mão começava a doer — e você simplesmente não largava.

No dia 21 de abril, o Game Boy completou 37 anos de seu lançamento no Japão. Nintendo, 1989. Uma data que não aparece em nenhum calendário oficial, mas que mudou silenciosamente o que significa jogar videogame.

O projeto que ninguém queria financiar

Gunpei Yokoi era o engenheiro da Nintendo responsável pelo Game & Watch — os dispositivos portáteis LCD que venderam dezenas de milhões de unidades nos anos 80. Quando ele propôs o Game Boy internamente, a resistência foi real. O Atari Lynx estava chegando com tela colorida. O Sega Game Gear também. Do ponto de vista técnico, o Game Boy parecia defasado antes de ser lançado.

A tela em quatro tons de cinza esverdeado era considerada fraca. O processador era um Z80 modificado, arquitetura dos anos 70. A justificativa de Yokoi era de uma praticidade brutal: tela colorida e retroiluminada consumiria as pilhas em poucas horas. Um console portátil que durava duas horas não era portátil de verdade.

O Lynx e o Game Gear ficaram pelo caminho. O tijolão cinza vendeu mais de 100 milhões de unidades em toda a sua família de consoles. Yokoi estava certo.

Quatro pilhas AA e a tela que precisava de sol

A experiência física de jogar Game Boy é impossível de dissociar da nostalgia que ela carrega. A tela sem luz própria que exigia posicionamento estratégico perto de lâmpadas e janelas. O símbolo de bateria fraca piscando no canto superior — aquele aperto no peito de ver ele aparecer bem no meio de uma fase difícil. A busca desesperada por quatro pilhas novas num domingo à tarde.

A Nintendo chegou a vender uma lupa com luz integrada que encaixava na tela. Era gambiarra oficial, tinha fila nas lojas de importados e custava mais caro do que parecia razoável. Todo mundo queria uma.

O som saía por um único alto-falante na parte de trás, mas a qualidade dos chips de áudio da Nintendo era boa o suficiente pra criar trilhas que você ainda consegue cantarolar hoje: Super Mario Land, Kirby's Dream Land, Link's Awakening. Cada nota tinha peso, mesmo vindo de um speaker pequeníssimo.

Tetris: o pack-in que converteu uma geração inteira

No Japão, o Game Boy chegou às lojas com Super Mario Land na caixa. No resto do mundo, a Nintendo fez uma escolha diferente: Tetris.

O jogo de Alexey Pajitnov — criado em 1984 num computador soviético — foi licenciado pela Nintendo para ser o pack-in do Game Boy no Ocidente. A decisão foi questionada por alguns dentro da empresa: por que não um Mario? Por que um puzzle tão simples?

O que aconteceu foi uma das maiores demonstrações de inteligência de produto da história do entretenimento. Tetris no Game Boy vendeu dezenas de milhões de cópias. Mães e pais que nunca tinham pegado num controle compraram Game Boy por causa do Tetris. O console virou presente de adulto, não só de criança — e o catálogo inteiro se beneficiou disso.

A biblioteca que fez um console durar uma geração inteira

O ciclo de vida normal de um console costumava ser de cinco a seis anos. O Game Boy sobreviveu em alguma forma de 1989 até o início dos anos 2000, com variações ao longo do caminho — o Game Boy Pocket em 1996, menor e mais elegante, e o Game Boy Color em 1998, com tela colorida sem retroiluminação. A compatibilidade se manteve em toda a linha.

A razão da longevidade estava na biblioteca. Super Mario Land 2 colocou Wario no mapa. Kirby's Dream Land foi o primeiro game do personagem que existe até hoje. The Legend of Zelda: Link's Awakening (1993) entregou uma aventura completa num console de bolso, com profundidade comparável às versões caseiras do SNES.

E então vieram os Pokémon. Em 1996 no Japão e em 1998 na América do Norte, Pokémon Red e Blue transformaram o Game Boy de tijolão importado em fenômeno cultural global. O cabo link para trocar pokémon entre dois consoles — que obrigava duas cópias do jogo — criou a primeira grande rede social de pátio de escola do mundo dos games.

No Brasil, um objeto raro e desejado

O Game Boy chegou ao Brasil principalmente pela via informal. O mercado brasileiro era fechado para eletrônicos importados a preço acessível, e o tijolão aparecia nas mãos de quem tinha algum familiar viajante ou de quem frequentava as poucas lojas especializadas de shopping com preços proibitivos.

A maioria da garotada brasileira conheceu o Game Boy através de um amigo sortudo — ou na locadora que tinha um ou dois aparelhos pra alugar junto com as fitas. Alugar um Game Boy com Link's Awakening por um final de semana era o tipo de programa que entrava no calendário da semana com antecedência. O manual era invariavelmente em japonês ou inglês. Ninguém lia porque o jogo explicava tudo sozinho.

Quando o Game Boy Color chegou no final dos anos 90, com preços um pouco mais acessíveis pelo mercado paralelo, a febre do Pokémon garantiu que o console finalmente chegasse em escala nas mãos da molecada brasileira. Mas o tijolão original já tinha passado sua missão pra frente.

O legado que não depende de nostalgia

Trinta e sete anos depois, o Game Boy original está disponível em emuladores em qualquer smartphone — com uma qualidade que o hardware nunca teve. Você pode jogar Link's Awakening no Nintendo Switch com gráficos completamente redesenhados. Pokémon está em tudo.

Mas o legado do tijolão cinza não é só sentimental. Ele provou que uma proposta técnica "inferior" vence quando a experiência completa é melhor: bateria que dura, biblioteca que cresce, preço que chega mais perto do bolso. Yokoi tinha razão sobre quase tudo, e o mercado demorou anos pra entender por quê.

Qual foi o jogo que marcou a sua passagem pelo Game Boy? Tetris interminável, as horas com o Link's Awakening ou a época em que a escola inteira parou por causa do Pokémon? Conta nos comentários. E se quiser mais retrogaming dos anos 90, não perde o post sobre Donkey Kong Country e a revolução visual que salvou o SNES.

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