Top Gear: Amado por Brasileiros e Esquecido pelo Mundo

Pergunta para qualquer brasileiro acima dos 35 anos qual é o jogo que define o SNES no imaginário dele. Vai ouvir Super Mario World, Street Fighter II, e — com uma frequência que assusta estrangeiros — Top Gear. Agora faz a mesma pergunta para um americano ou japonês e ele olha com aquela cara de “isso existiu?”. Poucos jogos ilustram tão bem o descompasso cultural entre o retrogaming brasileiro e o resto do planeta quanto esse racer de 1992 da Kemco.
Um Clássico Que Não Deveria Ter Dado Tão Certo
Top Gear foi lançado em março de 1992 pela Kemco, desenvolvido pela britânica Gremlin Graphics. Tecnicamente, era um jogo modesto: usava Mode 7 de forma limitada, tinha visual em terceira pessoa com horizonte falso, e corria num framerate que hoje chamaríamos de “nervoso”. Nenhum crítico da época o colocou no mesmo nível de F-Zero ou, mais tarde, Super Mario Kart.
Mas Top Gear tinha três armas que compensavam tudo: 16 pistas espalhadas por vários países, tela dividida para dois jogadores em qualquer pista do campeonato, e sistema de combustível que exigia paradas em pit stops — um detalhe quase de simulador no meio de um arcade.
A Trilha Sonora Que Ninguém Esquece
Antes de falar de Brasil, precisamos falar de Barry Leitch. O compositor escocês entregou em Top Gear uma das OSTs mais marcantes do SNES, com faixas que pareciam rock instrumental dos anos 80 tocadas por um sintetizador entusiasmado. A famosa música da primeira pista, “Track 1”, virou praticamente hino nacional do retrogamer brasileiro.
Leitch depois faria trilhas para Lotus Turbo Challenge, Horizon Chase (referência direta a Top Gear) e até contribuiria com a sonoridade de F-Zero X anos depois. Mas é no racer de 92 que ele atingiu o patamar cult.
Por Que o Brasil Abraçou Como Nenhum Outro País
Nos anos 90, o SNES chegou oficialmente ao Brasil em 1993 pela Playtronic, joint venture entre Gradiente e Estrela. A biblioteca oficial era pequena, os preços absurdos (muito cartucho custava o equivalente a um salário mínimo), e o mercado paralelo de cartuchos piratas e locadoras tomou conta.
Nesse ecossistema, Top Gear se encaixou com perfeição. Era barato de produzir como pirata, rodava em qualquer SNES, dois amigos podiam jogar juntos sem precisar de Multi-Tap, e o campeonato tinha a duração certa para uma tarde de locadora — nem curto demais nem maratona de fim de semana.
O resultado: praticamente toda criança brasileira dos anos 90 jogou Top Gear pelo menos uma vez. Nenhum outro país teve essa experiência com o mesmo jogo.
Tela Dividida e Amizades Quebradas
Quem viveu aquilo sabe: o split-screen de Top Gear era território sagrado. Dois jogadores, dois carros, uma pista só. Você cuidava da sua metade da tela, roubava uma olhadinha na do colega para ver se ele estava na sua cola, e torcia para que o NPC não atrapalhasse no meio de uma curva no Brasil (sim, uma das pistas era no Brasil).
As parceiras eram desfeitas no pit stop. O amigo que esquecia de abastecer virava piada por semanas. O nitro gastado no momento errado rendia gritaria. Era futebol de botão com motor.
O Esquecimento Global e a Eternidade Nacional
Fora do Brasil, Top Gear ficou no ostracismo. Foi ofuscado por F-Zero, engolido por Super Mario Kart em 1992, e quando o Nintendo 64 chegou com Mario Kart 64 e Wave Race, a franquia Kemco simplesmente evaporou da memória coletiva internacional. A produtora ainda tentaria reinventar a série com o ambicioso Top Gear 3000, que levou as corridas para o espaço, mas o tempo já havia virado.
Aqui, aconteceu o contrário: Top Gear virou identidade. Virou remake brasileiro independente (Horizon Chase, da Aquiris, é basicamente uma carta de amor ao jogo). Virou meme, virou camiseta, virou cover no YouTube.
Se você tem alguma cicatriz emocional com o pit stop do Top Gear, conta aí nos comentários. Essa é uma dor coletiva que merece ser compartilhada.




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