Como criar senha forte: passphrase de 6 palavras (Diceware)

"Tr0ub4dor&3" parece uma senha complicada, mas segue um padrão que qualquer programa de quebra de senha conhece: palavra comum, letra trocada por número, símbolo no fim. Já "cavalo-bateria-grampo-nuvem-pedal-sorvete" parece brincadeira e é muito mais difícil de adivinhar. A diferença está em como a senha foi escolhida, não em quantos símbolos ela tem.
Por que senha com símbolo e número não é forte
Humanos são previsíveis quando precisam cumprir regras de complexidade: primeira letra maiúscula, "a" vira "@", um número no final, um "!" para fechar. Quem quebra senhas sabe disso e testa essas variações primeiro. O resultado é uma senha difícil de lembrar e fácil de adivinhar.
A orientação oficial mudou por causa disso. O NIST, agência de padrões dos EUA, passou a priorizar comprimento em vez de regras de composição nas diretrizes de identidade digital (SP 800-63B, revisão 4, de 2025): a recomendação é aceitar senhas longas (pelo menos 64 caracteres), barrar senhas que já apareceram em vazamentos e não obrigar troca periódica sem motivo. Confira o texto atual no site do NIST antes de adotar números específicos numa política corporativa.
O que é uma passphrase e o que é Diceware
O que é uma passphrase?
Passphrase é uma senha formada por várias palavras sorteadas ao acaso, como "cavalo-bateria-grampo-nuvem-pedal-sorvete". Ela é longa, fácil de digitar e de memorizar, e a força vem do sorteio, não da complexidade visual.
O que é Diceware?
Diceware é um método, criado por Arnold Reinhold em 1995, para sortear palavras de uma lista usando dados comuns de seis faces. Cada palavra é escolhida com 5 lançamentos de dado, que formam um número de 11111 a 66666. Esse número aponta uma palavra numa lista de 7.776 entradas (6 elevado a 5). A lista mais usada hoje é a "large wordlist" da EFF, publicada em 2016, que evita símbolos e palavras raras ou difíceis de soletrar.
Quanto vale cada palavra: a conta
Com uma lista de 7.776 palavras, cada palavra sorteada soma cerca de 12,9 bits de entropia. Seis palavras dão por volta de 77 bits, ou seja, 7.7766 ≈ 2,2 × 1023 combinações possíveis. Para comparar, uma senha de 8 caracteres realmente aleatórios entre ~94 símbolos imprimíveis tem cerca de 52 bits.
- 8 caracteres aleatórios (~94 símbolos): ≈ 6 × 1015 combinações. A 1 trilhão de tentativas por segundo (cenário de hash rápido e hardware dedicado), varrer tudo leva menos de duas horas.
- 6 palavras Diceware: ≈ 2,2 × 1023 combinações. Na mesma velocidade, são milhares de anos para varrer todo o espaço.
Esses números são contas simples feitas aqui, não medições de um ataque real. Servem para mostrar a ordem de grandeza. O ponto é que cada palavra extra multiplica o trabalho do atacante por quase 8 mil.
Como criar sua passphrase em 5 passos
- Pegue a lista. Baixe a EFF large wordlist (arquivo de texto com 7.776 linhas, número de 5 dígitos + palavra). Ela está em inglês; existem listas em português, mas confirme a origem antes de usar uma.
- Jogue cinco dados. Anote os cinco números na ordem, por exemplo 4-2-6-1-3 → 42613.
- Procure o número na lista e anote a palavra correspondente.
- Repita até ter 6 palavras. Para a senha mestra de um gerenciador de senhas, 6 já é um bom patamar; para algo de risco menor, 5 pode bastar.
- Digite de memória por alguns dias até fixar. Não troque palavras "porque ficou estranha": ao escolher a dedo, você destrói o sorteio e a conta acima deixa de valer.
Sem dados à mão, o gerador de passphrase do Bitwarden sorteia as palavras para você com um gerador aleatório do próprio programa. É menos "artesanal" que o dado, mas bem melhor do que inventar de cabeça.
Onde usar passphrase (e onde não)
Você só consegue memorizar poucas passphrases. Use-as onde precisa digitar de memória:
- Senha mestra do gerenciador de senhas — o uso principal.
- Senha de login do computador e de criptografia de disco (por exemplo, o PIN/senha do BitLocker).
- Conta principal de e-mail, que é a porta de recuperação das outras.
Para todo o resto (cada site, cada app), deixe o gerenciador gerar uma senha aleatória única e esqueça dela. Reutilizar senha é o que alimenta o credential stuffing, e uma passphrase excelente repetida em dez sites continua sendo uma senha comprometida no dia em que um deles vazar.
O que a passphrase não resolve
Uma senha longa não protege contra tudo. Se você digitar a passphrase numa página de phishing, o atacante recebe a senha inteira, longa ou curta. Se um infostealer estiver no seu computador, ele captura o que você digita. E um atacante que testa poucas senhas comuns contra muitas contas, como no password spraying, falha contra senhas sorteadas, mas pega quem ainda usa "Empresa@2026".
Por isso a passphrase é a base, não o fim da linha. Complete com autenticação em dois fatores (veja o passo a passo de 2FA com TOTP) e, onde houver suporte, passkeys. Confirme também se seu e-mail já apareceu em vazamentos com o guia do Have I Been Pwned: se uma senha antiga sua vazou, troque-a mesmo que pareça forte.
Resumo prático
- Senha forte é longa e sorteada, não cheia de símbolos escolhidos por você.
- 6 palavras Diceware ≈ 77 bits de entropia; cada palavra extra multiplica o esforço do atacante por ~7.776.
- Memorize no máximo 2 ou 3 passphrases (gerenciador, computador, e-mail principal); o resto vai no cofre de senhas.
- Nunca reutilize, e ative 2FA em tudo que importa.
Se quiser dar o próximo passo depois da senha, leia o post sobre passkeys e autenticação sem senha, que explica por que, no futuro, talvez você precise memorizar bem menos.
Fontes consultadas
- NIST, SP 800-63B (Digital Identity Guidelines, Authentication and Authenticator Management), revisão 4
- EFF, "Deep Dive: EFF's New Wordlists for Random Passphrases" (2016) e lista eff_large_wordlist.txt
- Arnold G. Reinhold, método Diceware (1995)




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