Netscape IPO — 31 anos do Big Bang da internet comercial

Netscape IPO — 31 anos do Big Bang da internet comercial

Em 9 de agosto de 1995, a bolsa de valores NASDAQ abriu com um problema incomum: havia compradoras demais para um papel que nem chegou a negociar nos primeiros dois horas. A ação da Netscape Communications Corporation foi oferecida a US$ 28 — já o dobro do preço original previsto pelos bancos — e quando os pregões finalmente abriram, ela pulou direto para US$ 71. Fechou o dia a US$ 58,25, valorizando uma empresa que nunca tinha tido lucro em mais de US$ 2,9 bilhões.

Trinta e um anos depois, esse dia ainda é chamado de "Big Bang" da internet comercial. Vale revisitar o que aconteceu e por que importa.

Quem era a Netscape em 1995

A Netscape Communications foi fundada em abril de 1994 por Jim Clark — que havia construído e vendido a Silicon Graphics — e Marc Andreessen, um recém-formado de 22 anos que tinha desenvolvido o Mosaic, o primeiro navegador gráfico popular, durante a faculdade. O Navigator, o browser que a empresa lançou, era rápido, suportava imagens inline e tinha uma interface que qualquer pessoa conseguia usar sem manual.

No verão de 1995, o Navigator tinha algo em torno de 80% do mercado de navegadores. Para boa parte dos usuários americanos, acessar a internet era sinônimo de abrir o Netscape. A empresa distribuía o software gratuitamente para consumidores e cobrava de empresas — um modelo de negócio que ainda não estava consolidado o suficiente para gerar lucro, mas que gerava usuários em ritmo exponencial.

Os números do IPO

Os bancos de investimento originalmente pretendiam oferecer as ações a US$ 14. Horas antes do pregão, a demanda era tamanha que esse teto foi dobrado para US$ 28. Mesmo assim, não foi suficiente para absorver as ordens de compra. O pregão atrasou quase duas horas enquanto a NASDAQ tentava equilibrar a fila.

Quando a negociação começou, a ação abriu a US$ 71 e chegou a US$ 74,75 antes de recuar. No fechamento, Jim Clark — já rico antes da Netscape — tinha uma participação que valia cerca de US$ 566 milhões. Andreessen, com 24 anos à época, estava valendo perto de US$ 59 milhões.

A empresa não tinha histórico de lucro. Estava no mercado há pouco mais de um ano. E entrou no NASDAQ com capitalização de mercado de quase US$ 3 bilhões.

Por que o IPO da Netscape foi um marco da internet?

Foi o primeiro grande IPO de uma empresa de internet pura — e provou que Wall Street estava disposta a pagar muito por crescimento futuro, sem exigir lucros presentes. Isso estabeleceu o template que centenas de startups ponto-com seguiriam nos anos seguintes, até o crash de 2000. A Netscape não inventou a internet, mas transformou o acesso a ela em produto de massa e mostrou que havia dinheiro a ser feito nesse espaço.

A Microsoft acordou — e respondeu em agosto

O IPO da Netscape chegou num momento em que a Microsoft estava prestes a lançar o Windows 95. Bill Gates havia chamado a internet de "maré que levanta todos os barcos" num memo interno de maio daquele ano. O sucesso de mercado do Navigator confirmou que a empresa estava atrasada nessa maré.

Ainda em agosto de 1995, a Microsoft lançou o Internet Explorer 1.0, inicialmente como parte do pacote Microsoft Plus! para Windows 95. Era tecnicamente inferior ao Navigator — mas estava no sistema operacional que dominava os PCs do planeta. A guerra dos navegadores, que definiria boa parte da segunda metade dos anos 1990, começou ali.

É uma história com paralelos próximos ao BSOD ao vivo no COMDEX em 1998: a Microsoft sempre esteve disposta a forçar a mão quando o mercado ameaçava escapar do seu ecossistema.

O que sobrou do legado

A Netscape perdeu a guerra dos navegadores. O Internet Explorer, distribuído gratuitamente e embutido no Windows, foi ganhando mercado a cada versão. Em 1999, a AOL comprou a Netscape por US$ 4,2 bilhões — uma saída honrosa para os founders, mas o fim da empresa como força independente. O Navigator foi descontinuado em 2008.

O que ficou foi o JavaScript, desenvolvido pela Netscape em 1995 — hoje a linguagem de programação mais usada do mundo — e o padrão SSL, criado pela empresa para criptografar conexões web, predecessor direto do TLS que usamos hoje. O mesmo protocolo que aparece no cadeado do seu navegador quando você acessa um banco ou usa uma VPN tem raízes no trabalho da equipe de Andreessen nos anos 90.

Para quem se interessa por a história da web nos anos 90 — do GIF ao Internet Explorer — a Netscape é o elo que conecta a internet acadêmica ao mercado de massa. Sem o Navigator, a web comercial teria levado mais alguns anos para decolar. E sem o IPO de agosto de 1995, a corrida do ouro ponto-com teria começado de um jeito bem mais discreto.

O que o IPO da Netscape nos ensina hoje

Três décadas depois, o padrão que a Netscape estabeleceu — crescimento a qualquer custo, valuation desconectado de lucro, narrativa de "dominar o mercado" — segue presente em cada ciclo de startups. O crash de 2000 corrigiu o excesso, mas não extinguiu o modelo. A diferença é que hoje entendemos melhor o que sustenta uma empresa dessas no longo prazo.

O IPO da Netscape foi um momento de euforia real. E como todo momento de euforia, revelou tanto sobre o potencial do que estava sendo construído quanto sobre a capacidade das pessoas de exagerar nesse potencial.

Se você curte esse tipo de história — onde tecnologia, dinheiro e ingenuidade se misturam — o post sobre o Deep Blue vencendo Kasparov em 1997 tem a mesma pegada: um momento que parecia definir o futuro e que o futuro tratou de relativizar.

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