Web livre há 33 anos: o dia que a CERN abriu mão de tudo

Você abriu o navegador hoje sem pensar no que estava fazendo. Clicou num link, foi para outro, voltou, abriu uma aba, fechou outra. Isso aconteceu bilhões de vezes hoje no mundo inteiro — em celulares, computadores, televisões, geladeiras. A web virou o ar que a internet respira. Mas em 30 de abril de 1993, ela poderia ter tomado um caminho completamente diferente. Num prédio em Genebra, dois diretores assinaram um documento de meia página que decidiu que ninguém seria dono disso. Que seria de todos.
A proposta que o chefe chamou de "vaga, mas excitante"
A história começa em março de 1989, quando Tim Berners-Lee, um físico britânico trabalhando no CERN, escreveu um documento interno chamado "Information Management: A Proposal". O problema que ele queria resolver era simples e frustrante: o CERN tinha centenas de pesquisadores espalhados pelo mundo, cada um com seu próprio computador, seu próprio sistema operacional, seu próprio jeito de organizar informação. Quando alguém saía do projeto, o conhecimento ia junto. Berners-Lee queria criar um sistema onde as informações ficassem linkadas entre si, acessíveis de qualquer máquina.
O supervisor de Berners-Lee, Mike Sendall, leu o documento e rabiscou na capa: "vague, but exciting" — vago, mas excitante. Não foi exatamente um cheque em branco, mas também não foi uma rejeição. Berners-Lee ganhou tempo e espaço para continuar. O nome original do projeto era "Mesh". Só em 1990, quando ele começou a escrever o código de verdade, o nome mudou para World Wide Web.
Para desenvolver o sistema, Berners-Lee usou um computador NeXT — aquela máquina cara e elegante que Steve Jobs havia criado depois de ser demitido da Apple em 1985. O NeXTSTEP era um sistema operacional avançado para a época, e foi nele que Berners-Lee escreveu o primeiro servidor web (CERN httpd), o primeiro navegador (chamado simplesmente de WorldWideWeb) e as especificações do HTTP e do HTML. Tudo nasceu ali, naquele cubo preto.
O primeiro site do mundo e o parceiro que a história esqueceu um pouco
Em 20 de dezembro de 1990, Berners-Lee publicou o primeiro site da história da web. A URL era info.cern.ch e o conteúdo era basicamente uma explicação sobre o próprio projeto. Não tinha imagem, não tinha cor, não tinha layout — era texto com links. Mas era um texto que apontava para outros textos, e esses textos apontavam para mais outros. Era o conceito inteiro funcionando.
Trabalhando junto com Berners-Lee nesse período estava Robert Cailliau, um engenheiro belga que também pesquisava hipertexto no CERN e se tornou parceiro fundamental para convencer a gestão da instituição de que aquilo valia investimento. Cailliau raramente aparece nas manchetes — a história tem uma tendência irritante de simplificar as origens de tecnologia para um único herói — mas foi parte essencial de todo o processo.
Entre 1991 e 1993, a web cresceu lentamente mas de forma consistente dentro do ambiente acadêmico. Outros laboratórios e universidades começaram a rodar servidores web. O número de sites no mundo se contava nos dedos de uma mão, depois nos dedos de duas mãos, depois nas dezenas. A tecnologia funcionava. A questão era o que o CERN faria com ela.
30 de abril de 1993: o documento de meia página
Naquele dia, dois executivos do CERN assinaram um documento curto — quase informal para o peso do que representava. Walter Hoogland, Diretor de Pesquisa, e Helmut Weber, Diretor de Administração, assinaram uma declaração endereçada a "quem possa interessar". O texto estabelecia que o CERN renunciava a todos os direitos de propriedade intelectual sobre o código da World Wide Web, tanto o código-fonte quanto os binários, e concedia permissão para qualquer pessoa usar, duplicar, modificar e redistribuir o software livremente.
Não havia taxa de licenciamento. Não havia royalty por uso comercial. Não havia restrição por país ou por tipo de organização. Com meia página e duas assinaturas, o CERN decidiu que a web não seria de ninguém — o que na prática significa que seria de todos.
É difícil exagerar o peso dessa decisão. Em 1993, já existia o modelo alternativo bem estabelecido: tecnologias proprietárias, licenças comerciais, acordos de uso. Se o CERN tivesse seguido o caminho corporativo padrão da época, a web poderia ter virado um sistema fechado como tantos outros que tentaram dominar a comunicação digital antes dela e fracassaram. A AOL tinha seu jardim murado. A CompuServe tinha o seu. O Minitel francês era um sistema totalmente proprietário que durou décadas na França — mas nunca saiu da França de verdade.
O que aconteceu depois
Em abril de 1993, havia cerca de 50 servidores web no mundo. Até o final do mesmo ano, esse número havia saltado para mais de 500. O navegador Mosaic foi lançado em janeiro de 1993 pela NCSA — antes da decisão do CERN, mas aproveitando a tecnologia aberta — e pela primeira vez trouxe imagens inline para a web, transformando aquele ambiente de texto em algo visualmente mais próximo do que conhecemos hoje. Com o domínio público garantido e o Mosaic crescendo, o crescimento da web se tornou exponencial.
Em 1994, Berners-Lee fundou o W3C, o World Wide Web Consortium, para manter os padrões abertos da web e garantir que a filosofia original — interoperabilidade, acesso livre, ausência de controle centralizado — continuasse como princípio organizador. O W3C existe até hoje e é a razão pela qual um site funciona tanto no Chrome quanto no Firefox quanto no Safari quanto em qualquer outro navegador decente.
A decisão de 30 de abril de 1993 não foi só generosa — foi estrategicamente brilhante. Uma web proprietária teria criado fragmentação, teria dado a alguma empresa o poder de decidir quem entrava e quem ficava de fora, quais conteúdos eram permitidos, qual a taxa para acessar. A abertura foi o que permitiu que a web escalasse para cinco bilhões de usuários. Ironicamente, ao abrir mão de tudo, o CERN garantiu que a web virasse a infraestrutura mais importante do mundo moderno.
Trinta e três anos depois
Em 2026, vivemos num momento em que a abertura original da web está sendo constantemente pressionada de todos os lados. Plataformas fechadas que só funcionam dentro dos seus próprios ecossistemas. APIs que se fecham do dia para a noite. Algoritmos que decidem o que você vê sem nenhuma transparência sobre as regras. Há uma tensão permanente entre a web como bem público e a web como produto comercial.
Mas o fato de essa tensão existir — de que ainda faz sentido lutar pela abertura, de que os padrões abertos ainda importam — é herança direta daquele documento de meia página assinado em Genebra há 33 anos. Duas assinaturas num papel criaram o campo de batalha onde ainda estamos jogando.
Se você chegou até aqui pelo navegador, você está usando a consequência direta daquela decisão. Vale lembrar disso de vez em quando. E se você quer entender como a web visualmente se tornou o que é hoje, o post sobre o Mosaic 1.0 conta a outra metade da história — o browser que colocou imagens na web e convenceu o mundo que aquilo não era só coisa de cientista. Para a história de como a computação foi ficando invisível ao redor de nós, tem também o texto sobre Mark Weiser e a computação ubíqua — o homem que previu que tudo isso um dia viraria ar.




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